Dança do Ventre: o giro da existência na dança dos detalhes
Milenar e de origem egípcia, a dança do ventre transforma vidas, refaz histórias e revira as perspectivas de quem a pratica
Revista: Palumba
Repórter:Michelle Ferret (Clarice Terref)
Paredes pintadas de azul e branco, almofadas coloridas, tapetes adormecidos no chão, imagens de deusas nas prateleiras, figurinos de cores vivas estendidos como num varal, duas salas com espelhos largos e um incenso de canela aceso no canto da sala. Entrar no universo de uma academia de dança do ventre é ser transportado para outro mundo. Um lugar mais calmo que a velocidade do cotidiano e um espaço de suspensão de asas, como queria o poeta Manoel de Barros.
A música com língua indecifrável e os instrumentos de percussão afinados de maneira aguda e uma divisão rítmica completamente diferente da música brasileira, remetem a um tempo milenar onde a humanidade nem sabia o que era carro, computador, televisão e muito menos luz elétrica. Caminhar por àqueles acordes é reviver uma atmosfera de energia mais pura e não menos densa. É respirar diferente, sentir outra realidade e ter um tempo para ouvir a voz que vem de dentro.
É neste lugar que a camiseta larga e branca escondendo o corpo de Lucia Rabelo dá vez a um corpete preto e uma calça coberta por um xale com penduricalhos coloridos, garantindo a leveza do movimento. Os detalhes, os trejeitos, a posição dos pés, o bastão, a mão apoiada cuidadosamente atrás da orelha e o deslocar dos quadris revelam uma mulher diferente daquela que acabara de chegar à academia.
Naquele momento, Lucia é deusa, se comporta como uma e a camiseta esquecida no canto da sala é apenas uma das suas vestes subjetivas desamarradas de si. Junto com o tecido fica a vergonha de se mostrar e a narrativa de uma história. Ela chegou até a academia Tuareg Kasa do Oriente – localizada em Ponta Negra (Natal) – através de seu marido que a despertou para a dança quando conheceu num Curso MBA de Direito, Michelle Santiago, dona da Tuareg (sim, Michelle é também advogada). Isto aconteceu há sete anos, quando Lúcia ainda não sabia “o que era existir”. Depois disso, todos os seus passos são diferentes. “Vim por curiosidade e comecei a dançar com 42 anos. Meu marido me incentivou no início, mas hoje ele se arrepende muito por isso. Minha vida mudou completamente. Eu tinha uma timidez que me impedia de ver o mundo e, além disso, eu era submissa a tudo, não me via, não existia. Quando entrei aqui estava com uma depressão que só queria chorar dia e noite. A dança representa o prazer, a liberdade, uma nova vida. Ela só me trouxe esperanças, abriu um mundo para mim”, contou Lúcia, mãe de três filhos, um neto e que durante esses sete anos só faltou três aulas e coleciona vídeos para aprimorar a técnica da dança.
Os olhos claros de Lucia enquanto dança, lembram um farol (durante a reportagem, as alunas ensaiavam para uma apresentação). Daqueles bem acesos que guiam as embarcações pelo mar adentro. Seus movimentos precisos e sua capacidade de elaborar cada pedaço da coreografia com exatidão fazem dela uma dançarina de chamar a atenção de qualquer um. Talvez por isso seu marido tenha tanto ciúmes de vê-la dançar. “É natural a mudança no comportamento das mulheres que iniciam na dança do ventre. A dança nos mostra por inteiro, pois é um exercício prático de autoconhecimento. Para muitas mulheres é doloroso, pois ficamos tão transparentes que enxergamos até aquilo que não gostamos em nós. Mas é também muito prazeroso, pois aprendemos a nos amar do jeito que somos e a nos valorizar como ser humano. É impressionante como a mudança é visível de dentro para fora. Até o olhar de quem começa a dança do ventre modifica. Muitas alunas chegam aqui na academia cabisbaixas e hoje já conseguem enxergar além ”, disse Michelle ou Nuriel El Nur, seu nome artístico que significa “fogo de Deus” ou “Luz divina”.
Histórias de Fogo
A história contada por Lúcia não é tão rara neste mundo da dança, a própria transformação na vida da dona da academia é de fazer suspirar. Ela conheceu a dança do ventre há 17 anos, por acaso. Goiana de nascença, ela foi levada a primeira aula por engano. Sua amiga tinha acabado de se matricular numa academia de dança e a levou para experimentar. “Eu fui achando que era dança flamenca, a qual eu tinha verdadeira adoração. Quando cheguei era algo completamente diferente do que pensei. Passei a perceber melhor o mundo e sendo assim digo muito que foi a dança quem me escolheu”, lembra.
Com a facilidade no início, a identificação pelos movimentos e o desejo de ir além daquela pequena sala de aula, Michelle seguiu viagem depois de estudar as técnicas da dança durante três anos no ir e vir entre Goiânia e São Paulo. Com o desejo de desbravar o país e levar a dança para lugares onde ela não existia ainda, Michelle aportou em Natal. Foi quando em 1999 surgia a primeira escola de dança do ventre da cidade. “Como a cidade era carente da dança e eu estava vindo com as técnicas modernas que estavam sendo estudadas em São Paulo, aos poucos fui deixando a advocacia de lado e abracei de vez a arte que é minha grande inspiração de vida”, disse Michelle com os olhos marejados. Nesse momento na verdade, Nuriel El Nur parecia acender-se.
Hoje, com dez anos de escola, esses mesmos olhos navegantes tiveram a oportunidade de observar vidas indo e vindo como um mar aberto e sem cais. “É muito forte perceber cada história dessas. Muitas mulheres chegam aqui através de indicação médica, seja pelo psicólogo ou através do ortopedista, outras por que desejam fazer uma atividade física e não se sentem a vontade em outros lugares, muitas chegam por curiosidade e outras tantas para aprender a técnica e dançar para seus maridos e namorados”.
A última opção, Michelle garante ser uma idéia que logo é abandonada pelas mulheres. “A gente percebe que muitas alunas chegam com esse desejo fixo de dançar para os maridos e namorados, mas depois compreendem que a dança não é só isso. É uma dança que trabalha o corpo de dentro para fora, começando pela coordenação motora, a dissociação dos membros e por fim o equilíbrio da mulher por inteira. E esse poder de descoberta, acaba refletindo na própria vida”. Ela lembra que é muito comum ouvir das mulheres a seguinte frase, “eles só vão me ver dançar quando merecerem”. E isso pode demorar, quiçá, uma vida inteira.
Esse é o pensamento de Sayonara Gonçalves, também professora da academia. Ela se apaixonou pela dança aos dez anos de idade quando assistiu no seu interior – no Ceará – uma apresentação de dança do ventre na praça. Desde aquele dia não esqueceu mais os movimentos que fizeram seus olhos brilharem. “Hoje dou aulas e percebo que minha vida é muito melhor. Eu era um bicho do mato, não sabia tratar as pessoas bem (nesse momento Michelle interfere e diz, “era insuportável”). Hoje me vejo muito nas minhas alunas. A forma como elas chegam e como elas estão hoje. Por isso essa história de dançar para o marido acaba sendo uma grande bobagem. A dança ensina a valorização de nossa própria vida para depois fazer alguém merecer a sua dança, que é a sua própria descoberta. E isso é sagrado”, contou Sayonara.
Evelise Silveira, estudante de fisioterapia e estética e praticante da dança do ventre há apenas três meses já percebeu no primeiro instante que a dança não é banal. “Quando a gente conta para o namorado que está fazendo dança do ventre, ele fica louco. Mas merecer vai muito longe disso”, afirma.
Sem contra indicação
De sapatilhas pretas, roupinha colada ao corpo, o xale amarrado ao quadril e um jeito de quem não se cansa, com seus corações fora do peito, como quis Torquato Neto, Giusey Rosa aos 70 anos é uma das alunas mais comprometidas da Tuareg. Ela foi estimulada a ter aulas pela sua filha, Silvia Battaglia, quem procurou a dança com o simples motivo de fazer uma atividade física. Silvia foi levada pelas mãos de Ana Cecília Veríssimo, uma menina de 25 anos com três filhas e uma história linda para contar. Cada uma em sua singularidade conseguiu transcender o espaço da academia e refez suas próprias vidas seguindo a principal lição da dança do ventre, a autodescoberta. Dona Rosa é prova viva de que a idade é só um detalhe. Ao vê-la fazendo aula, a leveza e a força de vontade são tão presentes que qualquer movimento fora do compasso é imperceptível. “Depois que comecei a dança tudo na minha vida melhorou. A respiração é outra, a forma como encaro a vida é outra e principalmente a vitalidade. Acordar hoje é muito mais agradável”, contou dona Giusey Rosa com seus olhinhos de menina e sua voz empostada com sotaque italiano. Faz um ano que ela dança e sua evolução é tamanha que ela já chegou a se apresentar no Teatro Alberto Maranhão. “É engraçado que no dia que minha mãe dançou eu fiquei muito nervosa. Não consegui assistir”, lembra Silvia. Quando a pergunta é sobre a aprovação do marido de dona Rosa, pai de Silvia, a resposta é imediata. “Ele reclama muito que mamãe faz aulas. Fica dizendo que ela está velha demais para isso. Mas quando ele a assistiu no palco, tudo mudou. Talvez ele tenha percebido que minha mãe hoje é outra mulher, muito mais forte do que antes”, dispara a filha.
Para iniciar na dança basta ter mais de 10 anos e disposição para agüentar o ritmo e o furacão de descobrir-se. Prova disso, é Ana Cecília Veríssimo, a menina que levou a mãe de dona Rosa para dançar. Ela que é mãe de três meninas aos 25 anos, se aceitou como mulher através dos movimentos da dança. “Engravidei com 15 anos e tudo muda. Eu tinha muita vergonha do meu corpo e de mim. Minha auto estima estava muito para baixo e sentia vontade de me movimentar. Como fiz balé durante 14 anos, não me enxergava mais fazendo aquela dança, devido ao corpo e foi através da lista telefônica que achei a academia e estou até hoje. Com a dança sou uma pessoa muito mais tranqüila em relação ao mundo”, disse Cecília com a segurança de poucos.
Enquanto fazia o alongamento para o início da aula, Cecília com seus cabelos longos e loiros, unhas pintadas de vermelho e uma técnica para fazer qualquer um se inspirar para entrar de vez na dança do ventre, se dividia entre a atenção na coreografia e na sua bebê de apenas dois meses que dormia enquanto sua filha Ana Luísa (4 anos) pedia mais um chocolate. “Olho para minhas filhas e lembro quando dancei com um barrigão de seis meses no palco do Teatro Alberto Maranhão. Acredito ter sido aquele o dia mais feliz da minha vida... um momento único. Tive muito medo de estar com o ventre ocupado e não conseguir dançar, mas a dança mostra que é algo realmente além. É a dança da fertilidade, em todos os sentidos”, disse Cecília que também é estudante de turismo, cuida das três filhas, de sua casa, marido e das plantas que são suas paixões.
Depois de ouvir todas as histórias vivas ali naquele espaço e preencher a ficha de matrícula para um início breve das aulas, veio mais uma descoberta. Tuareg é o nome de uma tribo nômade proveniente do Islã, que habita o deserto do Saara. Lá, as mulheres andam com o rosto descoberto e seus maridos se cobrem por respeito. É considerado um povo guerreiro e quem manda na tribo são as mulheres. Lá, elas são valorizadas, tem voz ativa e são colocadas em primeiro plano, inclusive pelos filhos.
Um pedaço da história
Considerada a dança da fertilidade, a dança do ventre tem origem no Egito e reza a lenda que a criação de seus movimentos, como as ondulações abdominais, tinham o objetivo de ensinar às mulheres as contrações do parto, preparando-as para serem mães. É comum atribuir a origem a rituais oferecidos em templos dedicados à deusa Ísis, em agradecimento à fertilidade feminina e às cheias do rio Nilo. A dança se espalhou pelo mundo depois da invasão árabe e hoje no Egito, contraditoriamente, quem também a pratica hoje em dia são os homens. A data aproximada de sua origem é de 7.000 a 5.000 antes de Cristo.

Confira os vídeos do evento: FACES de 15 de dezembro 2011 realizado no Teatro de Cultura Popular. http://www.youtube.com/watch? v=1wv9Xwok2jk http://www.youtube.com/watch? v=eXPkN-BB-n0 http://www.youtube.com/watch? v=hOKey1uzIb0 http://www.youtube.com/watch? v=zhCGBjX8ObE